Hoje sugiro a leitura de uma delicosa crônica escrita por um amigo daqueles que a gente ama porque ama e basta... Angelita Lombarde
O cara “deus” e nossa humanidade
Um momento de tristeza às vezes pode ser resultado de um tempo que a gente quis muito que fosse diferente: um sopro que fosse pássaro, uma palavra que fosse ninho, um córrego que fosse rio, um atalho que fosse caminho, uma caverna que fosse abrigo, um aceno que fosse carinho, uma nota que fosse canção de ninar, uma pipa que fosse asas a nos servir para voar; ou tudo isso ao contrário, e porque não também em perspectiva vertical, de través, ou oblíqua?
Não sei como é “o cara deus” e não me preocupo com as formas como ele é apresentado. E nem tampouco me diz respeito os nomes a ele atribuídos. Mas quem o concebe na dimensão da “infinita bondade” está sempre pronto a generosidades; parece andar com ele no brilho do olhar, na mesura do gesto, e na simplicidade da fala, sem perdê-lo de mira na presença onipotente, ou se quisermos na onipresença potente – creio que algo na proporção das poucas pessoas que a gente consegue cativar e amar entre milhares que cruzam nossos caminhos.
E a gente se pergunta: qual presença a gente busca? Qual intercessão a gente pede? O cara deus é um todo multifacetado, não no sentido do fragmento, mas no sentido das muitas maneiras que parece se manifestar. Tudo porque o tempo do coração não é o mesmo tempo da insaciedade de Cronos (esse que é o deus do tempo cronometrado, a figura mitológica imortalizada pelo quadro de Goya, em que os filhos são devorados).
O cara deus é uma força pronta na sua improntidão, e é resposta vingada num mar de dúvidas. Antes é a perda em razão da busca, antes é o fardo em favor da leveza, e quase sempre é o sentido último, e quiçá pleno, dos que nele crêem. Ele se apresenta como âncora de tudo o que se quer ao tempo e ao jeito de nossos corações quase sempre sufocados.
Fica a impressão de que a pergunta que está sempre posta, dado a nossa insignificância, pode ser pronunciada da seguinte forma:
- De Que Tecido Somos Feito?
Nem tanto ao mar nem tanto a terra. Bebemos da fonte de coisas que nunca nos pertenceram e também da fonte de coisas que tem tudo a ver com a gente. O tempo, senhor do destino, segundo Caetano Veloso, é de fato um analgésico poderoso e, no mais das vezes, a cura por completo de nossas feridas e dissabores. Nosso corpo e alma nos parecem uma espécie de soma ensandecida de eventos, composição lúcida e demente, depositários que são dos frutos que colhemos (no plano físico e metafísico) – cadeia de reações que comportam da lágrima incontida ao riso desavisado no meio de uma tarde morna de um dia qualquer de nossa breve existência.
A dor viva no trajeto de um nervo tem mesmo a sensação de um calafrio, como se as ramificações burilassem umas com as outras, mas quase sem alteração externa aparente. Assim também reage nosso metabolismo quando sentimos que algo não está bem, aquele vazio, um oco a se perder dentro de nós, uma espécie de ferida que dói e que não podemos tocar.
Ser cético em relação ao mundo às vezes procede e faz até bem. Tenho a impressão de que ao mesmo tempo em que nos é oferecido o cálice da santa ceia, também nos é dado a corda usada por Judas Iscariotes. Tudo parece uma implosão o tempo todo.
Mas há sempre um jeito de a gente processar o que nos parece de difícil digestão. Morder, assimilar, absorver o que é proteína, e jogar fora o que não nos serve, pelo canal ou orifício que for preciso, e sair de qualquer ressaca, perda, ou revés disposto a VER DE NOVO A LUZ e tudo o mais que essa expressão traz em si de significado. É preciso que saibamos verter de nós alguma coisa que subverta a dor; achar o segredo num alimento qualquer que nos sirva de enzima, a forma catalisadora do SER, de deixar-se por inteiro sob qualquer signo que nos dê o alento, e que nos permita encontrar as pessoas que a gente ama, não sem antes deixar de co-habitar com o medo de nossa própria imagem refletida em desconexão.
Um pouco mais e estaremos em 2011. Poderemos ainda nos servir do cosmo, do abraço, do beijo. Dia de ano, quem sabe, saltar sobre sete ondas do oceano, e cuidar de sentir o pulso no seu sortilégio de movimentos. De frente para o mar, quase sempre reluz lembrar ou nos remeter à realidade do grão de areia - o quase nada que somos. Mas o nada que somos também é o tudo que podemos ser; a soma de “únicos” que ao fim de tudo (vá saber?!) venha compor a totalidade do “cara deus”, seja ele quem for. E como sugeria Roberto Prado: “Porque não juntar o nosso nada/... e fazer dessas perdas somadas/ o achado de alguma coisa?”
Luiz Carlos Heleno
Agosto de 2010 (O cara deus e nossa humanidade)
Abril de 1999 (De que tecido somos feito)
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